BAR FC

10 anos. Passou tão Fast…

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Cáscio Cardoso

Cáscio Cardoso

Toni Silva, em 2017. Dez anos depois de narrar o que pode ter sido a sobrevivência do Bahia.

Há 10 anos uma partida mudaria a história do Bahia. Jamais será unanimidade. Foi uma glória ou uma vergonha? Leia como vivi aquele Bahia x Fast:

” 07 de outubro de 2007 foi um domingo em que já acordei cansado. Parecia que eu tinha levado uma surra. E tinha mesmo. Em prestações, ano após ano, não faltaram pancadas no meu juízo e no meu sofrido coração de torcedor do Bahia. Desde 1997, após aquele 0x0 contra o Juventude na Fonte Nova, quando o Bahia conheceu o seu primeiro rebaixamento da história, foram mais tristezas que alegrias. Posso listar aqui para você não achar exagero. Em 1997, 1998, 1999, 2003, 2004, 2005, 2006 a torcida do Bahia terminou o ano engolindo choro (alguns não conseguiam engolir e era muito compreensível). 2007 se desenhava igual. O tricolor vivia o segundo ano seguido no porão do futebol brasileiro, a série C. E no quadrangular semifinal com ABC-RN, Fast Club-AM e Rio Branco -AC conseguiu a proeza de chegar à última rodada com a eliminação encaminhada. Isso mesmo. O Bahia, para não jogar o seu terceiro ano de série C precisaria vencer o Fast na Fonte Nova e torcer para que o empolgado Rio Branco não vencesse o já classificado ABC de Natal. Detalhe: jogo no Acre. Desde a quarta-feira anterior, após o maldito 2×1 para o ABC no Frasqueirão, jogo que colocou o time baiano na condição supracitada (receba esse supracitada na caixa dos peitos para eu sugerir que tenho vocabulário), decidi que estava na hora de parar com isso. Seguir acompanhando o futebol, minha cachaça, porém, com mais parcimônia em relação ao Bahia. Era muito envolvimento com consequências graves nas minhas relações pessoais, estado de espírito, até mesmo evolução como indivíduo.

Decidi que aquele domingo cansado de outubro eu não ia me concentrar em futebol. Não ia ver o Bahia fracassar de novo. Até aquele ano, o Bahia não havia alcançado sequer UM mísero acesso no campo. Só sabia descer. Para subir, só nas costas de quem puxou o tapete da decência (É, estou falando da pornográfica Copa João Havelange mesmo.)

Sigamos. Defini meu esquema tático para o domingo: praia, cerveja, sol na cabeça. Chegar em casa do meio para o fim da tarde, com a pele ardida enfim por um bom motivo e um sono redentor. Por mim, dormiria às 17h daquele domingo e acordaria em 2008. Mas a vida é feita de mais “não” que “sim”. Até cumpri o itinerário. Em Itapoan, com meus primos Fábio, Igor e Luciano, tomei cerveja, banho de mar, só não tomei tendência. Volta e meia o assunto “Bahia” ia pra mesa. Meus primos até cogitaram ir para o jogo. Eu virei mais um copo de extrato de tomate com a cremosa gelada e disse: “nem fudendo”. Durante a agradável resenha, consegui não pensar na partida da Fonte Nova por algum tempo. 20 a 25 minutos somados os trechos, se muito. A tarde chegou, aquele frio na barriga só não foi maior que meu orgulho. O Uno Mille prata guiado por Luciano me deixou em casa. Ao chegar na portaria do prédio onde morava, o assombrado do porteiro, Régi, torcedor do Vitória, me fez o favor de pirraçar: “ O Rio Branco tá em cima, viu?” . Eu não queria saber de nada, mas perguntei: “ já fez gol?”. Ele: “AINDA…não”.

Pra mim, Régi estava certo. A dor era questão de tempo. Peguei o caminho do elevador e ao chegar em casa firme em meu planejamento, encontrei meu pai, jogando paciência no computador e ouvindo o jogo do Bahia NO MEU QUARTO. Perguntei laconicamente qual a pretensão dele com aquela ideia, e ele disse: “ lá no Acre está 0x0.” Porra, o jogo começando e meu pai naquele otimismo. Fiquei puto. Fui pro banho. Saindo, ouvi um “porra” de Seu Sérgio e já previ o pior. Pênalti pro Rio Branco. Na trave. Fingi indiferença com o grito do velho e disse que ele poderia ficar lá (como se essa decisão fosse minha), mas que eu iria dormir. Mentira. Deitei, botei o travesseiro na cara, mas não preguei os olhos. Fingi que dormia, virava de lado, de bruços, e aquele “zum zum zum” do rádio somado ao barulho do clique do mouse de meu computador não foram capazes de me ninar. Mas não assumi isso. Permaneci deitado. Esperando a missa. Não ouvi mais nenhum “porra” do velho. Fiquei intrigado. Mas deixei quieto. Consegui um trecho de sono verdadeiro. Ao acordar, com a luz da tela do computador sendo mais importante para iluminação do quarto, percebi que os jogos estavam acabando ou tinham acabado. Joguei o orgulho pra cima junto com o travesseiro e cutuquei meu pai: “tá quanto aí? Já acabou”?

Ele, ligadasso, tirou o fone do rádio, permitiu que o som invadisse o quarto e disse: “ainda tá 0x0 no Acre. ESTÁ ACABANDO LÁ”. O meu coração já deu um “baticum diferente”.
“E o Bahia?” Completei ainda fingindo indiferença. Ele respondeu: “tá 0x0 também, perdendo gol”.
Indignei-me “de com força”. Cheguei para a borda da cama e vociferei contra o clube e todos que o faziam. O mais difícil estava acontecendo, que era o Rio Branco não vencer. MAS O BAHIA ESTAVA EMPATANDO COM O ELIMINADO FAST. Para mim, estava morrendo não só um torcedor. O clube poderia deixar de existir. Pois, passo à frente. FIM DE JOGO NO ACRE E EU COMEMOREI. Me senti muito estúpido, porém, foi mais forte que eu. E a essa altura já me via sentindo o luto de 1999, 2003, 2004, 2005 e 2006 à medida que o tempo passava. Apesar de não estar presente na Fonte Nova, como nos anos anteriores, a dor já estava parecida.

Juizão estava fazendo força para o Bahia conseguir sua vaga. Ignorou pênalti pro time amazonense, expulsou dois atletas deles, deu cinco minutos de acréscimo, mas o Bahia não fazia sua parte. Até que, pela voz de Toni Silva (com quem tenho o prazer de compartilhar diversas transmissões pela Rádio Sociedade hoje em dia), ouvi o gol salvador de Charles (que eu achei que tinha sido de Moré). Eu e Seu Sérgio quebramos muita coisa dentro do quarto, pelo corredor, que tinha alguns quadrinhos pendurados e também na sala, onde fixamos residência para pular e berrar. Liguei do meu celular para duas pessoas: Deus e o Mundo. Perdi a voz, alguns itens domésticos, corri, desci as escadas pra achar Régi ( o sacana tinha trocado o turno exatamente às 19h) e não estava mais lá. Revivi um sentimento alucinante que mixava sensações de potência, glória, conquista, orgulho, coragem e sei lá mais que porra. O Bahia passava para o OCTAGONAL FINAL DA SÉRIE C. Cacete, era muito pequeno para a história do clube, mas talvez tenha sido ali que veio a permissão para que a sequência dessa história existisse. Um jogo que deu nome e representou uma geração que nasceu no meio da década de 90 (não foi meu caso), só viu o Bahia diminuindo de tamanho, mas nunca abandonou o time. Conhecida como “ Geração Fast.“ Um jogo histórico que ainda não garantia nada ao Bahia além de uma vaga entre os 8 melhores da SÉRIE C e o meu retorno ao ringue para apanhar de novo. Por fim, como a vida é mais feita de “não” que “sim”, fui dormir ainda mais cansado.

Pra terminar, se ligue na narração emocionante de Toni Silva no gol de Charles. Foi como recebi a notícia de que o Bahia ainda estava vivo.

Nota:

São 10 anos de um terrível momento de quase morte do Bahia, sobrevivência do Bahia e morte de torcedores. 2007 é para lembrar e aprender. Para nunca mais se repetir. Detalhe: mesmo com o acesso, mais uma vez o ano terminaria em choro para o torcedor do Bahia. Sem dúvida, o pior choro de todos. 25 de novembro não pode jamais passar despercebido. E a Fonte Nova ainda deve uma referência, na minha opinião, àqueles que se foram.

Toni Silva e Espedito Magrini estiveram aqui no BAR FC. E esse jogo foi assunto.


Confira esse papo aqui no link

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